Gerontologia

Site sobre gerontologia e estudos sobre o envelhecimento.

Existiriam limites concretos entre o mundo real e o universo da imaginação? Ao traçar linhas de conexão entre alguns trabalhos de Margareth Brandini Park, tentaremos defender que não! Em uma primeira cena, Margareth entrevista em seu programa “Literatura e Educação” da RTV Unicamp, o psicólogo Jaime Lisandro Pacheco que nos fala sobre os elos entre velhice aposentadoria e depressão. Na cena seguinte, Margareth propõe uma saída criativa para este dilema através das páginas do seu livro mais recente: “Doroteia, a velhinha que gostava de dançar”.

Distinguir o universo imaginário daquele considerado mais real, é tão complexo quanto tentar falar da saúde do corpo sem considerar a saúde da alma. Da mesma forma, pensar em uma educação feita exclusivamente a partir de fontes formais de produção de conhecimento é esquecer que o aprendizado humano advém de saberes construídos a partir de diversas lógicas e visões de mundo.

Nesta matéria desenvolvida a partir de inspirações e contribuições de Margareth Park, fazemos um breve passeio por territórios do conhecimento formal e não formal, conectando idéias e travando diálogos entre circunstâncias reais e imaginárias, que apresentam por um lado algumas imagens sobre os limites associados à velhice e suas razões, e por outro, aspectos envolvidos nas possibilidades de enfrentamento.

Para tratar deste tema, trazemos trechos extraídos da literatura, da poesia, da sétima arte, da vida real, do saber popular e do conhecimento acadêmico, desenhando um caminho textual que, coloca em foco, breves recortes da experiência humana perante o envelhecimento a velhice e a vida.

Através de cenas protagonizadas por alguns dos nossos convidados, tais como Bandeira, Walmor, Frank, Jaime, Margareth, Doroteia, Al, Marilia, Carlos, Ewellyne, Vinícius, são desencadeados pontos de disparo para reflexões sobre este processo. Fazemos dessa forma um pequeno caldo de cultura que se propõe a colocar em evidência alguns bastidores, e um pouco da diversidade, existentes no substrato de base responsável pela formação das imagens que construímos sobre a velhice.

* * *

I- Colorindo páginas da vida

“Gosto de contar histórias que aconteceram,

algumas de verdade, outras de imaginação, que são verdades especiais.

Para contá-las busco sempre minha criança interior,

que tem asas e me oferece rumos a seguir.” (34)

“...Quando escrevemos textos curtos,

precisamos ter a frase exata.

Ela não pode ser pesada ou triste demais

quando se trata de solidão,

por exemplo.

Temos que apontar caminhos

que possam romper esses limites estreitos

colocados aos velhos...” (01)

Margareth Brandini Park

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II- Dançar um Tango Argentino

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

..............................................................................

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo

e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

“Pneumotórax”

Manuel Bandeira

(1886 – 1968)

* * *

Em 1904, aos 18 anos de idade, Manuel Bandeira recebeu um diagnóstico de tuberculose e foi desenganado pelos médicos. Viajou para a Europa, retornou, e construiu uma vasta obra poética que nos encanta até os dias de hoje.

Em sua proposta simbólica, e sempre à sombra da limitação e do sofrimento causados por uma doença que já havia se tornado crônica, para aqueles dias difíceis em que se deve lançar mão de um Tango como ritual de despedida, sempre restará a possibilidade de se escapar da realidade mais dura indo embora até a “Pasárgada”. (02) (03) (04) (05) (06) (07)

Doença, Limitações, Tristeza, e Sonho.

“...quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio:

“Vou-me embora pra Pasárgada!”...” (06- Manuel Bandeira )

“...Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias...” (07-Manuel Bandeira)

“...Vou-me embora pra Pasárgada”

foi o poema de mais longa gestação

em toda minha obra...” (07)

Manuel Bandeira

* * *

“Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei...

...

...E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada ”

* * *

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Extraído de texto de Cristiane Costa:

“...Pasárgada é uma alegoria do paraíso...” “...A evasão para uma outra realidade diferente da do poeta é uma das temáticas de “Vou-me embora pra Pasárgada”, poema de Manuel Bandeira em que o poeta busca uma espécie de paraíso para vivenciar os atos comuns da vida , os quais não puderem ser vivenciados devido à doença. ..” (07)

“...Novamente são dois extremos que são abordados pelo poeta: a realidade de dois mundos distintos, o presente e o imaginário; o que se nega e o que se deseja...” “...Bandeira coloca o sofrimento de lado e resolver ser feliz, agindo inconseqüentemente, livre de obrigações...” (07)

“...A Pasárgada de Bandeira alinha todos os tipos de liberdade: a amorosa, a sexual e até mesmo a liberdade de voltar à infância...” (07)

“...Considerando a vida de Manuel Bandeira e o convívio que o poeta teve com o tema da morte e da doença, que o fez até mesmo a abandonar os estudos; o poema retrata o tema da infância como um anseio de recuperar o tempo perdido, de reviver a ternura o mito que ficou arquivado na memória. A evasão é a recuperação da infância, pois a qualquer momento o poeta pode parar de brincar e chamar a mãe – d ´ água para lhe contar as historias da infância...” (07)

* * *

III – Atos comuns da Vida:

Velhice Aposentadoria e Depressão

São três categorias em questão: uma antropológica outra social e a última, biológica. Pelas três perpassa a atribuição simbólica de um sentido existencial de utilidade, em algumas ocasiões até de “utilitarismo”.

O que seria um senso de “vida útil” para o ser humano?

Se por um lado falamos de “vida útil” para objetos do nosso cotidiano tais como os eletrodomésticos ou os sapatos, um sentido “utilitário da vida” faz conexões com questões que remetem à valorização do indivíduo pelo viés do trabalho e da sua capacidade de produção, contribuição, ou engajamento. E passando dos “tempos modernos” aos “tempos contemporâneos”, pela sua capacidade de consumo. (08) (09) (10)

Agora está na moda:

se faz necessário um “envelhecimento ativo”.

Caso contrário, como será administrada essa massa populacional de velhos que está por rechear o planeta de gente improdutiva?

Como será possível continuar negando, que a velhice, em todas as suas conformações possíveis, se associa a mudanças que a afastam do mito da juventude eterna?

Essas questões, entretanto, não se limitam apenas a gerar motivos para reflexões de cunho político econômico ou cultural. Elas também nos levam a pensar a vida em sua dimensão enquanto drama existencial personalíssimo.

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Walmor Chagas

fez a sua escolha final em Janeiro de 2013. (11)

Nos últimos tempos Walmor havia optado por uma vida mais isolada e solitária. Com 82 anos sentia o peso da perda de visão. Dizia que não trabalhava mais rejeitando convites.

Aceitou fazer uma participação no filme "A Coleção Invisível", somente após saber que o roteiro era baseado em um conto de Stefan Zweig, de quem era um admirador. Rendeu-lhe uma premiação póstuma. Foi seu último trabalho como ator. (12)

“...Ele era do tipo de ator que torna o outro melhor...” (12)

“.. tinha uma inquietação artística,

o desejo de sempre fazer algo melhor... não gostava de improvisar...” (12)

“...Muitos estudiosos consideram que as mulheres se suicidam menos porque têm redes sociais de proteção mais forte e se engajam mais facilmente do que os homens em atividades domésticas e comunitárias, o que lhes conferiria um sentido de participação até o final da vida...” (13-Cláudia Collucci)

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IV - Em busca de Elos

Escola, Trabalho, Aposentadoria, Sintomas Depressivos.

Este é um eixo que dá base aos temas abordados por Jaime Lisandro Pacheco

na entrevista que concedeu a Margareth Brandini Park em Agosto de 2013. (14)